Clichê
e justiça
Dizer que o empate obtido
aos 46 minutos do segundo tempo, fora de casa, foi a cara do Grêmio é ‘chover
no molhado’. Fugindo um pouco do clichê, embora ele fosse justificado, o
resultado conquistado no apagar das luzes foi meramente um brinde à justiça do
confronto. Apesar do domínio inicial,
com marcação adiantada e posse de bola ofensiva, na primeira etapa, o Grêmio
não teve grandes chances de gol, tal qual o Newell’s Old Boys (NOB) — exceção
ao chute no travessão do jovem Ponce e a chance de cabeceio de Rhodolfo, antes
do mesmo empatar a partida.
Herança
Além manter-se na
liderança do grupo 6, atrasar a vida dos argentinos e encaminhar muito bem a
classificação, a partida teve outro componente, o resgate histórico às
tradições do Grêmio: Mesmo fora de casa, contra um adversário respeitável e
jogo típico de Libertadores, o tricolor voltou a jogar como time grande, se
compararmos com o ano passado. Méritos de Enderson Moreira.
Presente
e futuro
Embora o tricolor
ainda não tenha vencido nenhum grande adversário nesta Libertadores, ainda — enfrentou
apenas o próprio NOB duas vezes — a amostragem é promissora.
Colírio
Para quem gosta de
futebol bem jogado, independente do resultado, a atuação tricolor foi ilustrativa.
Além da reconhecida consistência defensiva — aliás Riveros atuou mais recuado
que o habitual — o ingresso de Dudu trouxe ao time velocidade e ambição
ofensiva, mesmo que o camisa 7 tenha atuado na função híbrida entre meia e
atacante, assim como Luan — conforme humildemente sugerido neste espaço dias
atrás. Além de ofertar ao tricolor o contra-ataque, sobretudo na segunda etapa,
a formatação com três volantes e dois meias de extrema velocidade — a exemplo
da seleção francesa — permitiram ao Grêmio surpreender o NOB no início da
partida quando ditou o ritmo do duelo.
Expoentes
Com a habitual
capacidade de apoio, o lateral-esquerdo Wendell fez grande primeiro tempo, principalmente
nas tabelas com Dudu. Entretanto, demostrou alguma dificuldade defensiva — a
‘canelada’ que originou a bola na trave de Ponce, na etapa final, é emblemática
neste sentido. Outro expoente da noite foi Riveros. Apesar de pouco destaque
ofensivo, o paraguaio novamente mostrou a velha excelência. Poucos atletas no
futebol brasileiro tem a capacidade de fazer as quatro funções de meio como o
camisa 16. Por fim, o atacante Dudu foi o grande nome gremista na jornada no
estádio Marcelo ‘El loco’ Bielsa. O porquê já fora supracitado nos tópicos
acima.
Dívida
Muito abaixo das
atuações que encantaram os gremistas no início da temporada, o jovem Luan
sucumbiu tecnicamente em Rosário. Por diversas vezes protagonizou arrancadas,
puxou contra-golpes, mas errou na penúltima bola (passe). Se estivesse em
jornada mais feliz, os gremistas poderiam estar celebrando os três pontos nesta
quinta-feira. Mas, tratando-se de um atleta recém chegado aos profissionais, a
oscilação é compreensível — aliás, Alán Ruiz poderia/deveria ter entrado no
lugar do camisa 26 bem antes do gol do Newell’s.
Vagalume
e xerife
Apagado durante os 90
minutos — talvez prejudicado por um problema no tornozelo — o centroavante Hernán
Barcos ‘brilhou’ aos 46 minutos, quando recuou e fez excelente cruzamento para
o gol de Rhodolfo. A propósito, não é a primeira vez que o camisa 4 se lança ao
ataque nos minutos finais quando o resultado é adverso – o mesmo ocorreu frente
ao São Paulo de Rio Grande no Gauchão. Rejeitado no São Paulo de Muricy de
Ramalho, o ‘xerifão’ gremista, além da conhecida evidência defensiva, também transformou-se
em alternativa ofensiva. Ou seja: não à toa, caiu nas graças da ‘HINCHADA
GREMISTA’.
‘Fantasminhas’
Festejado como
‘craques’ e presenças assíduas na seleção argentina, os meias Éver Banega
(volante) e Máxi Rodriguez (meia-atacante) não justificaram em nada o grande cartaz
que possuem — embora Máxi tenha feito o gol argentino. Atuando aberto pelos
flancos — direito no primeiro tempo e esquerdo, no segundo — Máxi parece que
renderia mais se atuasse centralizado, por sua capacidade de criação e passe.
Banega, entretanto, mal suou a camiseta. Com o perdão do aparente exagero, mas
é por essas e outras — por estar nas mãos de ‘pseudoscraques’ — que a Argentina
jamais ganhou notoriedade desde que Maradona pendurou as chuteiras — Vide
Gabriel Heinze, hoje titular do NOB e que por anos serviu a seleção argentina...
Exceções
Ainda sobre o
selecionado argentino, obviamente, Messi, claro, além de Di Maria e Agüero, são
algumas das parcas exceções do atual selecionado. Na minha singelíssima
opinião, evidentemente.
Destaque
Máster
Impressionante o que
jogou o veterano capitão do NOB, Lucas Bernardi. Firme na marcação, passe
preciso e ‘mestre’ na virada de jogo, o camisa 7, embora seus 36 anos, foi a
exceção de um meio-campo omisso do rubro-negro argentino — muito em conta pela
postura equilibrada do tricolor gaúcho.
Dois
toques
Autor de grandes
defesas, isso não exime Marcelo Grohe da falha no gol de Máxi. Curiosidade:
pouco comum no futebol mundial, a ‘zaga’ do Newell’s é composta por dois
canhotos (López e Heinze). Em contrapartida, o lateral-esquerdo (Castro), atua
preferencialmente com a perna direita.
Senhor
da razão
Definitivamente o
tempo é senhor da razão. Renato Portaluppi, apesar dos resultados, sempre
sofreu críticas pela postura ‘covarde’ com que mandava o Grêmio a campo. Embora
não tivesse a mesma oferta ofensiva que hoje dispõe Enderson, por diversas
oportunidade poderia ter escalado um time com postura mais à frente e rechaçou
a ideia em nome do conservadorismo. Conforme destacado, entre outros, neste
espaço, Renato é com justiça o maior jogador da história do Grêmio, mas como
treinador, é apenas mediano. Enderson Moreira, porém, chegou sem alarde —
inclusive com a desconfiança deste ‘pitaqueiro de futebol’, que defendia um
treinador mais experimentado —, e está se consolidando no comando da equipe.
Acertei com Renato e ‘queimei a língua’ com Enderson. Os gremistas agradecem.
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Fotos: Globoesporte, Gol TV e Grêmio Oficial